quinta-feira, 2 de abril de 2009

Os arquivos implacáveis do Nei Duclós

O Nei Duclós continua revirando seus arquivos e o resultado aparece acima com a foto, abaixo em mais um dos seus belos e generosos textos. Obrigado grande Nei ,por nos trazer mais uma vez um pouco da história do jornalismo catarinense.

Coração de veludo

A foto que republiquei recentemente da equipe original do Jornal de Santa Catarina, o JSC, atual Santa, de Blumenau, obteve grande repercussão. Fui adotado pelos blogs mais prestigiados de Florianópolis com notas e links. Soube (e li o discurso) que Paulo Brito, o veterano querido do jornalismo catarinense e do curso da UFSC, fez na abertura das aulas deste semestre, onde ele cita Mario Medaglia e eu, a partir desse post da foto histórica. É por isso que volto á carga, agora com outra foto que dorme em meus arquivos.Vejam o núcleo, a semente da redação original do Jornal de Santa Catarina em 1971, antes de o jornal sair, ou seja, antes de chegar o José Antonio Ribeiro, o Gaguinho, que assumiria o cargo de editor-chefe; antes de chegar Virson Holderbaum, que dividiria comigo a redação de Nacional e Internacional (copidescávamos os telegramas da UPI e da AP, da agência JB e acho até que da France Presse). E antes de eu chegar . Ou seja, esse é o núcleo principal do JSC, de Blumenau. Falta na foto o Nestor Fedrizzi que, claro, já estava lá, montando essa equipe. E outras pessoas, que se somaram ao projeto.Acompanhem comigo, dentro dos meus limites da memória (ei Brito, Medaglia, Strix, Canga: me ajudem!). Bem à esquerda, de barba, olhando compenetrado para o papel, o Sergio Becker, grande repórter em Porto Alegre que aí no JSC virou editor. Ao seu lado, de óculos caídos, o Renan Ruiz, editor de Arte, um baita talento que também se juntou ao grupo de gaúchos que foram inaugurar jornal no interior catarinense. Aliás, é impressionante a seriedade desta redação. Era sempre assim: no início, quando participávamos da inauguração de um veículo, era um rilhar de dentes, uma compenetração tremenda, uma seriedade que se mantinha ao longo do tempo. Mais tarde, ficávamos um pouco mais à vontade, mas eram assim as redações antigas: nada de fumaças nem romantismo, era estiva, eito brabo, trabalho para caralho!Na frente, de barba hirsuta e também compenetradíssimo, Mário Medaglia, editor de Esportes, o cara que inaugurou os cadernos especiais esportivos na imprensa catarinense, quando deu um banho de jornalismo na cobertura dos jogos Abertos de Santa Catarina, os Jasc. À direita de quem vê a foto, de óculos de lentes escuras, o chefe de reportagem José Reinoldo. Incrível que não lembro de nenhum repórter, mas tínhamos chefe de reportagem! Gaguinho queixava-se que todos os dias o Reinoldo, para fazer massa de oferta, colocava algumas pautas meio frias. Um dia, dois, três, passava. No quarto dia da mesma ronha (essa palavrinha era da época), Gaguinho tirava um sarro: “Ò Reinoldo, outra vez esse troço?” Lembro de Reinoldo aos berros pelo telefone, ligando para todo o estado. No fundo era isso: ele era sua própria equipe!Strix me lembrou que da outra vez eu deveria ter citado o Ayrton Kanitz, chefe da sucursal do JSC em Florianópolis, e que não aparece na foto. Cito para não esquecer do grande Kanitz, que há décadas não vejo, com seu humor inglês, sua postura elegante e carismática, suas palavras escandidas em tom baixo, com um humor arrasador, daqueles que nos fazia rir ainda dias depois de a piada ser dita. Bueno, vamos em frente na foto. O casal que aparece à esquerda de Reinoldo, em mesas separadas, eram figuras importantes do jornal, cuidavam da distribuição e arquivo, acho. Strix sabe mais do que eu, pode nos dizer.E finalmente ao fundo, o colunista social Paulo Becon, que tinha a árdua tarefa de reportar a sociedade fechada de Blumenau, um espaço dominado por grandes nomes como Beto Stodieck, do jornal O Estado de Florianópolis. Não foi fácil para Becon, mas ele tinha como apoio um programa de televisão.Tudo isso em 1971, somente 38 anos atrás. Nem foi tanto tempo assim. Continuamos guris, só que sessentões. Alguns se foram, como Fedrizzi, Gaguinho. Outros se nobilitaram, como Virson Holderbaum, que depois de séculos de jornalismo pesado e produtivo vive num castelo à beira mar no sul da ilha e tem o título de Conde Von Holderbaum. Mario Medaglia continua no front, com sua contundência de sempre no blog Batendo Forte e na sua coluna no Diarinho. Dos outros não tenho notícias. Cartas para a redação do Diário da Fonte.Lembram de nós? Ainda somos os mesmos. Temos um segredo guardado e estamos loucos para revelar: somos portadores de um coração de veludo, de um texto guerreiro, de um talento ancestral, de uma coragem sobrevivente, de uma vontade de que tudo dê certo, neste país que carregamos nos ombros como um andor de santo, daqueles antigos, que atraem o vôo arisco das andorinhas e o chumbo grosso das tempestades.

Um comentário:

Anônimo disse...

como diz o filosofo cesar valente: o sujeito com mais de cinquenta, se usa barba, parece um velho; se não usa barba, parece uma velha. poxa, tu eras peludo, hein, mario.
abç houseback, brasilia