quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sonho e pesadelo


Foto do Sambaqui na rede (Celso Martins)

Dois assuntos me aporrinharam nos últimos dias. O diploma e o que fizeram com o cenário importante da história do jornalismo catarinense. Passei por cima do primeiro, tem muita gente escrevendo bem, contra e a favor, sobre a decisão do ministro Gilmar Mendes e seus parceiros. Mas não posso ignorar o segundo, por se tratar de grande parte da minha vida como jornalista. Revolta saber que o acervo do jornal O Estado, contendo registros significativos e históricos da nossa imprensa, está jogado no lixo.


Em 1971 saí da Zero Hora em Porto Alegre direto para Blumenau para trabalhar na fundação do Jornal de Santa Catarina. Fiquei lá nove meses, e logo depois de parir as primeiras edições do “Santa”, como o chamávamos carinhosamente, não resisti aos encantos de Florianópolis e me mudei literalmente de mala e cuia para os altos da Felipe Schmitt, primeira sede do “mais antigo” depois da Conselheiro Mafra. Trazido pelo Marcílio Medeiros Filho, cheguei a trabalhar ali uma semana antes da troca de endereço para começarmos o off set de O Estado. Foi em maio de 1972.


Não estou escrevendo para falar de mim, mas para situar o leitor. E para dizer, com muito orgulho, que minha vida profissional foi feita praticamente toda em Santa Catarina. Excluo apenas o período de quatro anos para conseguir o diploma cursando jornalismo na PUC, coisa que o STF não acha importante, e os primeiros passos de um “foca” desajeitado e sonhador nas redações da sucursal de O Estado de São Paulo e Zero Hora. Foi aqui, nessa terra, que me fiz profissionalmente.


E trabalhando durante muitos anos em O Estado, o melhor jornal de Santa Catarina enquanto teve fôlego. Era um diário realmente estadual, com sucursais e correspondentes em todo o canto e que atingia às regiões extremas pode se dizer, “no tempo das diligências”. Era duro colocar a edição do dia em Dionísio Cerqueira, por exemplo. Mas O Estado chegava lá, atualizado e em tempo de ser lido na mesma data estampada na capa.


Hoje não posso mais ler o jornal. Pior, fico sabendo através do César Valente, do Celso Martins e do Canga, que a história de O Estado foi pro lixo. Fiquei triste e revoltado, ao ponto de passar a noite assombrado por um pesadelo. Estávamos, César eu, a olhar por um janelão de vidro no piso superior de um prédio não identificado. De repente, lá em baixo, de terno, chapéu enterrado na cabeça e sem olhar para os lados, muito menos para cima, passou José Matusalém Comelli. Instintivamente e sem dizer palavra, César e eu viramos de costas para a cena.


Tinha pensado em outro título para esta postagem, mais próximo das novelas policiais. Ficaria muito pesado, soaria desrespeitoso. Optei pelo saudosismo cheio de boas lembranças, motivo de orgulho para uma geração que passou pelo jornal, nos seus bons e maus tempos, recordações que não espantam a tristeza de quem sabe por que O Estado virou um monte de papel velho jogado ao chão. E não culpem os vândalos.

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