terça-feira, 7 de abril de 2009

"Repórter padrão"





Resenha do último livro do amigo jornalista e escritor, Lourenço Cazarré, com lançamento programado para o dia 15, em Brasília, no restaurante Carpe Diem – 104 Sul -, a partir de 18h30m.

Em “A Longa Migração do Temível Tubarão Branco”, Lourenço Cazarré encontra num jornalista a linha condutora do seu livro. (Por Carlos André Moreira – Zero Hora/Porto Alegre)

“O mais recente romance do escritor pelotense radicado em Brasília Lourenço Cazarré, A Longa Migração do Temível Tubarão Branco (Fundação Cultural de Curitiba, 210 páginas, R$ 30), é daqueles livros que vai criando seu público. Narrado em primeira pessoa pelo protagonista, o jornalista Dante Verga, até bem umas 50 páginas parece um livro antipático – difícil não, a prosa do autor é direta e certeira, antipático mesmo. Isso porque até mais ou menos sua primeira metade o livro é a cara de seu narrador, um personagem dos mais interessantes da ficção recente, mas profundamente desagradável. Jornalista rio-grandense radicado em Brasília, Verga é colunista de jornal e comentarista de TV, viciado em trabalho, sofre um infarto a caminho da redação e é internado em uma clínica. Só depois de o leitor ser plenamente exposto ao caráter imperfeito e equívoco do narrador é que o romance passa a desconstruí-lo – e com isso ganha uma feição nova.O livro foi publicado pela Fundação Cultural de Curitiba, por ter vencido em 2007 um prêmio dedicado a romances inéditos, em um júri que contou com a participação de Cristóvão Tezza, Manuel Carlos Karam e José Castello. Com mais de 40 livros publicados em uma carreira que inclui romances, contos e literatura infanto-juvenil, Cazarré já tem, além deste, outro livro pronto para sair ainda este ano pela Bertrand Brasil.Livros de escritores que também são jornalistas – e ­protagonizados por jornalistas – correm um sério risco, o de glorificar certo tipo improvável de repórter padrão: sujeito estressado viciado em leitura de jornais e que se considera um intelectual quando lê livros-reportagem escritos por colegas jornalistas.­ É um risco do qual o livro de Cazarré escapa galhardamente. Verga, o personagem, considera-se esse tipo de jornalista, e é isso o que se depreende nas primeiras páginas enquanto narra o infarto que sofreu, o atendimento de emergência, a experiência da clínica e o encontro com um médico tão cínico quanto ele,. A todas essas, a única preocupação do jornalista acima do peso e estressado, é ter de volta seu celular para ligar para o jornal e ditar as notas de sua coluna, ou ler as notícias do dia, ou falar com as fontes em busca de informação. Só lateralmente ganha espaço em seus pensamentos a família formada por uma esposa psicóloga e três filhas com as quais o personagem não mantém nenhuma identificação.– Comecei a escrever esse livro em 1998, e no primeiro esboço o personagem foi bastante calcado nos jornalistas de minha geração, aquela turma meio crítica, meio cínica, que tinha um inimigo comum contra o qual lutar, a ditadura, e que, quando essa ditadura terminou, se descobriu um pouco perplexa em um mundo que continuava aboslutamente igual – diz Cazarré.O romance não celebra esse modelo, pelo contrário, faz sua mais ácida crítica. As glórias do jornalismo na boca de um personagem tão desagradável quanto Verga mais parecem exageros aplicados ao nada. Obcecado por escrever a qualquer custo, Verga ouve uma proposta de seu médico. Poderá ter seu computador de volta enquanto estiver internado, mas apenas para escrever sobre a própria vida, buscando desencavar em seu passado as razões do infarto. É nessa tarefa de se recontar que Verga vai se despindo do personagem “jornalista puro-sangue” que havia construído para si e lançando um olhar para a vida que perdeu “garimpando no éter” do mundo das notícias: “Fiquemos com esse número: ao longo de minha vida adulta - trinta anos - li jornais durante vinte e uma mil horas. Crimes tragédias, bizarrices e fofocas. É um bocado de lixo”.A epígrafe do livro traz, em italiano, versos da Divina Comédia de Dante Alighieri que já fornecem uma chave para o entendimento do romance: “O vós, que tendes o intelecto são / observai a doutrina que se esconde / sob o véu destes versos estranhos.” Ao longo de 42 capítulos, todos titulados com versos da Comédia em italiano, vamos acompanhando a trajetória do protagonista como se de uma Humana Comédia se tratasse. Internado, Dante Verga (o nome não é coincidência, ao unir o Dante da Comédia com o realista Giovanni Verga) vai se afastando da engrenagem em que havia transformado sua vida e seu trabalho para se humanizar gradativamente. Uma transformação que é também da linguagem. Enquanto esgrime diálogos brutais com o médico, as enfermeiras e sua mulher, Verga e seu cinismo passam uma imagem de estranhamento artificial, como um ator que declamasse suas falas em uma farsa. É ao escavar seu passado e redescobrir a si mesmo que Verga aprende outra a vez a ser humano – e a falar como um. “

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