domingo, 23 de novembro de 2008

Nosso mordomo é a chuva

Para quem conhece a piada em cima do jargão dos romances policiais sabe o que significa a frase acima. Para quem não é familiarizado com esse tipo de literatura, explico: o serviçal é sempre o primeiro suspeito na investigação de algum crime. Na dramática situação vivida pelos catarinenses no momento as autoridades não cansam de repetir: a culpa de todos os desastres ocorridos em função da chuva interminável é ela, a chuva. Claro, como agente de efeito, não resta a menor dúvida da culpabilidade desta senhora hoje tão execrada. Mas, como causa, os muitos buracos são mais em baixo. Ou em cima, como queiram. Começam os estragos e lá vem as justificativas. Serve pra tudo, desde deslizamentos, destruição de estradas, alagamentos, enchentes, ruas esburacadas, falta de água e energia, queda de pontes, rompimento de adutoras, casas soterradas, tudo vai para a conta da intensidade da chuva. Pensemos um pouco. Existe, por exemplo, algum trabalho consistente e preventivo para contenção de encostas? A ocupação irregular de áreas de risco contribui em que medida para essas tragédias? A proliferação descontrolada de favelas nas periferias das cidades é responsabilidade de quem não fiscaliza ou não impede o agravamento deste problema social. Pelo que se observa a cada repetição destes fenômenos climáticos, definição pernóstica e pomposa para as enxurradas – um jeito de passar imagens mais fortes para aumentar o tamanho das desculpas -, o material utilizado para recapeamento de estradas e ruas é de última. O tapete preto do prefeito Dário Berger é o melhor indicativo para diagnosticar a porcaria que foi feita em vários bairros de Florianópolis. Vale o mesmo para muitas estradas recém entregues ao tráfego. A Casan explica a cada rompimento de cano que a pressão da água é o fator determinante nesses casos de chuva intensa. A Celesc faz a mesma coisa com a queda de postes ou outros defeitos no sistema. Ora bolas, será que a tecnologia aliada à engenharia moderna ainda não descobriu algum material mais resistente à pressão d’água, ao vento, à queda eventual de barreiras, ou outro tique nervoso da natureza? A cada interrupção nas redes de água e luz, a desculpa é sempre a mesma. As lições do apagão e outras anteriores não foram assimiladas. Nossas autoridades preferem olhar para tudo isso com aquela cara de coitadinhas, vítimas da chuva que nem precisa ser tão forte para provocar tantos estragos como os de agora. O pior é que, independente da estação, sempre haverá um mordomo de plantão para justificar a criminosa incompetência e omissão de quem deveria zelar pela tranqüilidade e segurança da população que paga impostos sem retorno em serviços.

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